Falam os vizinhos,amigos,…..
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
-De sua formosura
Já venho dizer:
É um menino magro,
De muito peso não é,
Mas tem o peso de homem,
De obra de ventre de mulher.
-De sua formosura deixai-me que diga:
É uma criança pálida,
É uma criança franzina,
Mas tem a marca de homem,
Marca de humana oficina.
-Sua formosura eis aqui descrita:
É uma criança pequena,
Enclenque e setemesinha,
Mas as mãos que criam coisas
Nas suas já se adivinha.
-De sua formosura
Deixai-me que diga:
É belo como o coqueiro
Que vence a areia marinha.
-De sua formosura
Deixai-me que diga:
Belo como o avelós
Contra o Agreste de cinza.
-De sua formosura
Deixai-me que diga:
Belo como a palmatória
Na caatinga sem saliva.
-De sua formosura
Deixai-me que diga:
É tão belo como um sim numa sala negativa.
-É tão belo como a soca
Que o canavial multiplica.
-Belo porque é uma porta
Abrindo-se em mais saídas.
-Belo como a última onda
Que o fim do mar sempre adia.
-É tão belo como as ondas
Em sua adição infinita.
-Belo porque tem do novo
A surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova
Na prateleira até então vazia.
-Como qualquer coisa nova
Inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
Quando a gente o principia.
-E belo porque com o novo
Todo o velho contagia.
-Belo porque corrompe
Com sangue novo a anemia.
-Infecciona a miséria
Com vida nova e sadia.
-Com oásis, o deserto,
Com ventos, a calmaria.
MORTE E VIDA SEVERINA
JOÃO CABRAL DE MELO NETO.










