Poesias

PENSAMENTO.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Há quem fale

Que a vida da gente

É um nada no mundo

É uma gota, é um tempo

Que nem dá um segundo…

Há quem fale

Que é um divino

Mistério profundo

É o sopro do criador

Numa atitude repleta de amor

Gonzaginha

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Livro sobre Nada.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Venho de nobres que empobreceram.

Restou-me por fortuna a soberbia.

Com esta doença de grandezas:

Hei de monumentar os insetos!

(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os

Pés dos seus discípulos.

São Francisco monumentou as aves.

Vieira, os peixes.

Shakespeare, o amor, A Dúvida, os tolos.

Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)

Com esta mania de grandeza:

Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas

De orvalho.

Manoel de Barros

Falam os vizinhos,amigos,…..

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

-De sua formosura

Já venho dizer:

É um menino magro,

De muito peso não é,

Mas tem o peso de homem,

De obra de ventre de mulher.

-De sua formosura deixai-me que diga:

É uma criança pálida,

É uma criança franzina,

Mas tem a marca de homem,

Marca de humana oficina.

-Sua formosura eis aqui descrita:

É uma criança pequena,

Enclenque e setemesinha,

Mas as mãos que criam coisas

Nas suas já se adivinha.

-De sua formosura

Deixai-me que diga:

É belo como o coqueiro

Que vence a areia marinha.

-De sua formosura

Deixai-me que diga:

Belo como o avelós

Contra o Agreste de cinza.

-De sua formosura

Deixai-me que diga:

Belo como a palmatória

Na caatinga sem saliva.

-De sua formosura

Deixai-me que diga:

É tão belo como um sim numa sala negativa.

-É tão belo como a soca

Que o canavial multiplica.

-Belo porque é uma porta

Abrindo-se em mais saídas.

-Belo como a última onda

Que o fim do mar sempre adia.

-É tão belo como as ondas

Em sua adição infinita.

-Belo porque tem do novo

A surpresa e a alegria.

Belo como a coisa nova

Na prateleira até então vazia.

-Como qualquer coisa nova

Inaugurando o seu dia.

Ou como o caderno novo

Quando a gente o principia.

-E belo porque com o novo

Todo o velho contagia.

-Belo porque corrompe

Com sangue novo a anemia.

-Infecciona a miséria

Com vida nova e sadia.

-Com oásis, o deserto,

Com ventos, a calmaria.

MORTE E VIDA SEVERINA

JOÃO CABRAL DE MELO NETO.

Ao Amor Antigo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

NOVÍSSIMO JOB.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

– Eu fui criado à tua imagem e semelhança.

Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre,

Nem a neta de Madalena para me amar,

O segredo que faz andar o morto e faz o cego ver.

Deixaste-me de ti somente o escárnio que te deram,

Deixaste-me o demônio que te tentou no deserto,

Deixaste-me a fraqueza que sentiste no horto,

E o eco do teu grande grito de abandono:

Por isso serei angustiado e só até a consumação dos meus dias.

Por que não me fizeste morrer pelo gládio de Herodes,

Ou por que não me fizeste morrer no ventre da minha mãe?

Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.

Já me julguei muito antes do teu julgamento.

E já estou salvo porque me deste a poeira por herança.

Murilo Mendes

José

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, Você?

Você que é sem nome,

que zomba dos outros,

Você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja do galope,

você marcha, José!

José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

Os Rios

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os rios que eu encontro

vão seguindo comigo.

Rios são de água pouca,

em que a água sempre está por um fio.

Cortados no verão

que faz secar todos os rios.

Rios todos com nome

E que abraço como a amigos.

Uns com nome de gente,

outros com nome de bicho,

uns com nome de santo,

muitos só com apelido.

Mas todos como a gente

que por aqui tenho visto:

a gente cuja vida

se interrompe quando os rios.

João Cabral de Melo Neto-Morte e vida severina.

Soneto de Fidelidade

terça-feira, 15 de março de 2011

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vive-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor(que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

BILHETE EM PAPEL ROSA

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.

Vê estas olheiras dramáticas,

este poema roubado:

“o cinamomo floresce

em frente ao teu postigo.

Cada flor murcha que desce,

morro de sonhar contigo”.

Ó bardo, eu estou tão fraca

e teu cabelo tão é negro,

eu vivo tão perturbada, pensando com tanta força

meu pensamento de amor,

que já nem sinto mais fome,

o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,

caldos quentes, me dão prudentes conselhos,

eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,

a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vias ligadas.

Antônio lindo, meu bem,

ó meu amor adorado,

Antônio, Antônio.

Para sempre tua.

Adélia Prado

Não Sei Quantas Almas Tenho

sábado, 27 de novembro de 2010

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não atem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: “Fui eu?”

Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

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